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A Linha do Tempo das Moedas Digitais de Banco Central

Explore a fascinante evolução das Moedas Digitais de Banco Central (CBDCs), desde os conceitos iniciais até a sua crescente relevância no cenário financeiro global, moldando o futuro da economia.

Por Isabel Costa8 min de leituraSão Paulo, BRASIL
Linha do tempo visual do desenvolvimento das Moedas Digitais de Banco Central (CBDCs) globalmente.
EchoChase / AI-generated

As Moedas Digitais de Banco Central (CBDCs) representam uma inovação transformadora no panorama financeiro, oferecendo uma forma digital de moeda fiduciária emitida e garantida por um banco central. A sua jornada é uma narrativa de experimentação e adaptação, impulsionada pela evolução tecnológica e pela necessidade de modernizar os sistemas de pagamento. Desde os primeiros conceitos teóricos até os projetos piloto em andamento em diversas nações, incluindo o Brasil com o DREX (anteriormente conhecido como Real Digital), as CBDCs prometem redefinir a infraestrutura monetária, promovendo maior eficiência, inclusão financeira e estabilidade. Esta linha do tempo explora os marcos cruciais que moldaram o desenvolvimento das CBDCs, contextualizando a sua crescente importância para economias como as de Portugal e do Brasil.

Pré-2010: Os Primeiros Conceitos e a Era Analógica

Antes mesmo do advento das criptomoedas, a ideia de dinheiro eletrónico já existia, embora de forma limitada e baseada em sistemas centralizados. Na década de 1990, alguns trabalhos académicos começaram a explorar a possibilidade de moedas digitais emitidas por bancos centrais, mas a tecnologia da época não permitia uma implementação viável em larga escala. O foco principal era na digitalização dos pagamentos interbancários e transações de alto valor, longe de uma moeda digital de uso geral para o público. A maioria das economias funcionava predominantemente com dinheiro físico e transferências bancárias tradicionais. O Banco de Portugal, por exemplo, já lidava com sistemas de pagamentos eletrónicos robustos, mas a emissão de uma moeda digital soberana não era uma prioridade, pois não havia a necessidade ou o impulso tecnológico que viria a surgir mais tarde.

2010-2015: O Despertar da Blockchain e a Curiosidade Inicial

O ano de 2008 marcou o surgimento do Bitcoin, a primeira criptomoeda descentralizada baseada na tecnologia blockchain, que acendeu a discussão sobre o futuro do dinheiro. Embora os bancos centrais inicialmente vissem as criptomoedas com ceticismo, o potencial da tecnologia de registo distribuído (DLT) para pagamentos eficientes e seguros começou a ser reconhecido. Em 2013, o Banco Central do Equador lançou o 'Dinheiro Eletrónico', por vezes citado como um precursor de CBDCs, mas era mais um sistema de pagamento digital que uma verdadeira moeda digital baseada em DLT. Este período foi caracterizado por uma fase de curiosidade e análise, onde os bancos centrais começaram a estudar a fundo o que as criptomoedas significavam para a estabilidade financeira e a soberania monetária.

2016-2019: Pesquisa Intensiva e Primeiros Protótipos

A partir de 2016, a pesquisa sobre CBDCs ganhou um impulso significativo. O Banco da Inglaterra publicou um dos primeiros artigos influentes sobre as implicações de uma moeda digital de banco central. Em 2017, o Banco Central do Canadá e o Banco de Singapura (MAS) lançaram os Projetos Jasper e Ubin, respetivamente, explorando o uso de DLT para liquidação de pagamentos interbancários. Estes foram os primeiros protótipos de CBDC atacado, focados em instituições financeiras. A Suécia, por sua vez, começou a explorar o e-krona em 2017, um projeto de CBDC de varejo para uso público, impulsionada pela diminuição do uso de dinheiro físico no país. O Banco Central Europeu também iniciou discussões internas e análises sobre o potencial de um Euro Digital. Segundo dados do Atlantic Council, neste período, menos de 20 países estavam ativamente explorando CBDCs.

As Moedas Digitais de Banco Central não são apenas uma evolução tecnológica; são uma reimaginação da infraestrutura monetária, com o potencial de trazer maior eficiência e inclusão a uma escala sem precedentes.

Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu

2020-2022: Aceleração Global e Primeiros Lançamentos

A pandemia de COVID-19 acelerou a digitalização das economias e, consequentemente, o interesse nas CBDCs. Em 2020, o Banco Central das Bahamas lançou o Sand Dollar, a primeira CBDC de varejo totalmente implementada. A China expandiu significativamente os seus testes do e-CNY (Yuan Digital), realizando amplos programas piloto em diversas cidades e envolvendo milhões de utilizadores. O Banco Central do Brasil, em 2020, anunciou formalmente os estudos para o Real Digital, visando a tokenização de ativos financeiros e a modernização do sistema de pagamentos. Em Portugal, o Banco de Portugal continuou a monitorizar os desenvolvimentos do Euro Digital, participando ativamente das discussões a nível europeu. Em 2022, o número de países a explorar CBDCs ultrapassou os 100, demonstrando o consenso global sobre a necessidade de investigar esta tecnologia. Estimativas da Accenture indicam que cerca de 60% dos bancos centrais já estavam em fase de pesquisa ou desenvolvimento avançado.

2023-Presente: Prova de Conceito e Consolidação

O ano de 2023 e o presente momento são marcados pela fase de prova de conceito e por projetos piloto mais robustos. O Banco Central do Brasil lançou oficialmente o projeto piloto para o DREX, focado inicialmente na tokenização de ativos e na liquidação de transações financeiras entre instituições, o que é conhecido como CBDC atacado. O DREX não visa substituir o dinheiro físico de imediato, mas sim criar uma plataforma para inovações financeiras. O Banco Central Europeu avançou com a fase de preparação para um Euro Digital, com a intenção de disponibilizá-lo como uma alternativa privada, segura e eficiente ao dinheiro físico e aos métodos de pagamento eletrónicos existentes. A Índia, a Nigéria e outros países continuam a experimentar com as suas próprias CBDCs. Atualmente, 130 países, representando 98% do PIB mundial, estão a explorar ativamente as CBDCs, com 64 deles em fase avançada de desenvolvimento ou piloto, de acordo com o Atlantic Council. O foco está agora em resolver questões de interoperabilidade, privacidade de dados e garantir a segurança cibernética.

AnoEvento/Iniciativa ChaveTipo de CBDC (se aplicável)Países/Organizações Envolvidas
2013Dinheiro Eletrónico lançadoSistema de Pagamento DigitalEquador
2016Publicação de artigo influenteConceitualBanco da Inglaterra
2017Projetos Jasper e UbinAtacadoCanadá, Singapura
2017Início da exploração do e-kronaVarejoSuécia
2020Lançamento do Sand DollarVarejoBahamas
2020Anúncio de estudos para o Real DigitalVarejo/AtacadoBrasil
2023Lançamento do projeto piloto DREXAtacado (inicialmente)Brasil
Marcos Importantes na Jornada das CBDCs

Progresso Global das CBDCs (2020-2024)

O Futuro das CBDCs em Portugal e no Brasil

Tanto Portugal quanto o Brasil estão atentos às implicações e oportunidades das Moedas Digitais de Banco Central. Em Portugal, o foco principal é o desenvolvimento do Euro Digital, liderado pelo Banco Central Europeu. O Banco de Portugal tem participado ativamente nas discussões e preparativos, assegurando que as necessidades e perspetivas do país sejam consideradas. O Euro Digital visa complementar o dinheiro físico e não substituí-lo, oferecendo uma opção de pagamento digital segura e com privacidade garantida. Espera-se que ele melhore a resiliência do sistema de pagamentos da zona euro e promova a inovação, ao mesmo tempo em que mantém a estabilidade financeira.

No Brasil, o DREX está a avançar como um projeto ambicioso que promete tokenizar diversos ativos financeiros, desde títulos públicos a propriedades, facilitando transações mais rápidas e seguras. O Banco Central do Brasil vê o DREX como uma camada de liquidação para inovações no mercado financeiro, permitindo o desenvolvimento de contratos inteligentes e a automação de processos. A fase piloto, que envolve instituições financeiras e empresas de tecnologia, está a testar a viabilidade técnica e económica antes de uma potencial implementação mais ampla. A expectativa é que o DREX aumente a eficiência do sistema financeiro, reduza custos de transação e promova a inclusão financeira, ao possibilitar novos modelos de negócio baseados em ativos digitais.

Implicações e Desafios

A implementação de CBDCs, como o DREX e o futuro Euro Digital, traz consigo um conjunto de implicações profundas e desafios complexos. Do lado positivo, as CBDCs prometem pagamentos mais eficientes, inclusão financeira para populações desbancarizadas (embora este seja mais um objetivo de CBDCs de varejo), maior estabilidade monetária através de uma alternativa segura a depósitos privados e um instrumento mais eficaz para a política monetária. Além disso, podem reforçar a soberania monetária e a resiliência do sistema financeiro contra ciberataques e falhas tecnológicas.

No entanto, os desafios são significativos. A privacidade dos dados é uma preocupação primordial, pois as transações digitais deixam rastros. Os bancos centrais precisam equilibrar a necessidade de rastreabilidade para combater a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo com a garantia da privacidade dos utilizadores. A segurança cibernética é outro ponto crítico, pois uma CBDC representaria um alvo atrativo para ataques. A interoperabilidade com sistemas de pagamento existentes e entre diferentes CBDCs nacionais é essencial para o comércio internacional. Finalmente, o impacto na intermediação financeira, ou seja, no papel dos bancos comerciais, precisa ser cuidadosamente gerido para evitar a desintermediação e garantir a estabilidade do setor bancário. A taxa de juro de uma CBDC, se houver, também é uma questão de design complexa que pode afetar a estabilidade financeira.

Frequently asked questions

O que é uma Moeda Digital de Banco Central (CBDC)?

Uma Moeda Digital de Banco Central (CBDC) é uma forma digital de moeda fiduciária que é emitida e garantida por um banco central. Ao contrário das criptomoedas como o Bitcoin, que são descentralizadas, uma CBDC é centralizada e representa uma obrigação direta do banco central, assim como o dinheiro físico.

Qual a diferença entre uma CBDC e as criptomoedas existentes?

A principal diferença é a centralização e o apoio estatal. As CBDCs são emitidas e reguladas por um banco central, enquanto as criptomoedas como o Bitcoin são descentralizadas e não possuem o apoio de uma autoridade monetária. As CBDCs visam replicar as características do dinheiro físico no ambiente digital, oferecendo estabilidade e confiança.

O DREX (Real Digital) é uma CBDC de varejo ou atacado?

O DREX, o projeto de CBDC do Brasil, é inicialmente concebido como uma CBDC de atacado. Isso significa que ele será usado principalmente por instituições financeiras para liquidar transações entre si e tokenizar ativos, e não diretamente pelo público em geral para compras diárias. No entanto, o seu design permite futuras expansões.

As CBDCs vão substituir o dinheiro físico e as contas bancárias?

A maioria dos bancos centrais, incluindo o Banco Central Europeu e o Banco Central do Brasil, afirma que as CBDCs são projetadas para complementar o dinheiro físico e os sistemas de pagamento existentes, não para substituí-los. Elas podem oferecer uma alternativa digital segura e eficiente, mas o dinheiro físico e as contas bancárias continuarão a desempenhar um papel vital na economia.

Quais são os principais benefícios de uma CBDC?

Os benefícios incluem maior eficiência nos pagamentos, potencial para inclusão financeira (especialmente CBDCs de varejo), resiliência do sistema financeiro, combate à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, e a possibilidade de desenvolver novas funcionalidades programáveis para o dinheiro. Além disso, reforça a soberania monetária de um país.

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