Ciência

9 Tendências de Financiamento da Ciência que Redefinem a Investigação em 2024

O financiamento da ciência está a passar por uma transformação global, moldando o futuro da investigação e inovação em Portugal e no Brasil com novas prioridades e modelos colaborativos.

Por Dr. Sofia Andrade9 min de leituraLisboa, PRT
Múltiplas mãos representando diferentes fontes de financiamento que convergem para apoiar a ciência e a investigação globalmente.
EchoChase / AI-generated

O futuro da investigação científica global está a ser redefinido por uma série de transformações profundas no financiamento da ciência. Em 2024, estas tendências não só influenciam quem financia as descobertas cruciais, mas também quais áreas da ciência recebem maior atenção e como os resultados são partilhados. Desde o aumento do capital privado até novas abordagens de colaboração internacional, o panorama está em constante evolução, com implicações significativas para países como Portugal e Brasil na sua busca por inovação e progresso. Compreender estas tendências é vital para cientistas, decisores políticos e o público em geral, à medida que navegamos por uma era de desafios complexos que exigem soluções baseadas na ciência.

Historicamente, o financiamento da ciência tem sido dominado por governos, através de agências como a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) em Portugal ou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Brasil. No entanto, os últimos anos testemunharam uma diversificação notável, impulsionada por desafios económicos, novas prioridades sociais e avanços tecnológicos. Esta reconfiguração está a gerar tanto oportunidades quanto desafios, exigindo que os investigadores e as instituições se adaptem a um ambiente dinâmico.

1. Ascensão do Financiamento Privado e Filantrópico

Uma das mudanças mais notáveis é o crescimento substancial do financiamento proveniente do setor privado e de fundações filantrópicas. Empresas como a Novartis e a Roche investem biliões de euros anualmente em I&D, mas agora vemos fundações como a Fundação Gordon e Betty Moore e a Fundação Bill & Melinda Gates a canalizar somas avultadas para a investigação básica e aplicada. Em 2023, o financiamento filantrópico para a ciência global atingiu cerca de 30 mil milhões de dólares, um aumento de 15% em relação aos cinco anos anteriores, segundo estimativas da Charity Navigator. Este tipo de financiamento muitas vezes permite uma maior flexibilidade e risco em projetos que os financiadores públicos podem não ser capazes de apoiar devido a restrições orçamentais ou a mandatos mais conservadores.

No Brasil, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), embora pública, tem incentivado parcerias com o setor privado, e vemos um crescimento do interesse de empresas como a Embraer em financiar investigação aeronáutica e espacial. Em Portugal, a crescente valorização de startups e a necessidade de inovação levam a que empresas se aproximem de universidades para cofinanciar projetos de I&D, especialmente em áreas como a saúde digital e a bioengenharia.

2. Ênfase em Projetos com Impacto Social e Ambiental Direto

Os financiadores estão cada vez mais a procurar projetos que demonstrem um claro potencial de impacto social e ambiental, alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Isto significa que a investigação sobre energias renováveis, saúde global, segurança alimentar e sistemas de água limpa está a receber uma prioridade crescente. O Climate Shot Challenge da Fundação Rockefeller, por exemplo, investiu 100 milhões de dólares em soluções inovadoras de mitigação das alterações climáticas.

Esta tendência traduz-se em chamadas para projetos que abordam, por exemplo, a resiliência costeira em Portugal (face ao aumento do nível do mar) ou a conservação da Amazónia no Brasil. As agências de financiamento nacionais estão a reorientar as suas estratégias para privilegiar este tipo de investigação, exigindo métricas de impacto explícitas nas propostas.

3. Colaboração Internacional e Consórcios Transnacionais

Grandes desafios globais como pandemias, alterações climáticas e doenças complexas não podem ser resolvidos por uma única nação. Consequentemente, o financiamento fomenta mega-projetos colaborativos e consórcios transnacionais. O programa Horizonte Europa, da União Europeia, é um exemplo paradigmático, com um orçamento de 95,5 mil milhões de euros para o período 2021-2027, exigindo a participação de várias entidades de estados-membros e países associados.

Para Portugal, a participação em consórcios europeus é crucial para aceder a financiamento significativo e para elevar o perfil da sua investigação. O Brasil, por sua vez, tem intensificado parcerias com instituições de pesquisa nos EUA e na Europa, visando compartilhar conhecimentos e recursos para estudos em áreas como a biotecnologia e a nanotecnologia. A complexidade administrativa e a necessidade de alinhamento entre diferentes burocracias são desafios persistentes nesta área.

4. Crescimento do Crowdfunding Científico e Financiamento Participativo

Plataformas como o Experiment.com ou o GoFundMe têm permitido que investigadores angariem fundos diretamente do público para projetos específicos. Embora o montante por projeto seja geralmente menor do que o financiamento institucional, esta via democratiza o acesso ao capital de pesquisa e permite o apoio a ideias inovadoras ou de nicho que podem não ser atraentes para financiadores tradicionais. Cerca de 8% dos projetos de investigação financiados nos últimos anos tiveram algum tipo de apoio via crowdfunding, demonstrando uma crescente aceitação deste modelo.

Em Portugal e no Brasil, esta tendência é ainda incipiente, mas com potencial de crescimento, especialmente para projetos de ciência cidadã ou investigação com forte apelo público, como estudos sobre doenças raras ou desenvolvimento de protótipos de baixo custo para comunidades carenciadas. É um modelo que exige mais do que uma boa ideia: requer uma comunicação eficaz e uma narrativa envolvente.

5. Aumento da Exigência por Ciência Aberta (Open Science)

Os financiadores estão a mover-se cada vez mais para modelos de 'Ciência Aberta', que promovem o acesso livre a publicações científicas, dados de pesquisa e metodologias. A iniciativa Plan S, apoiada por várias agências de financiamento europeias, incluindo a FCT, exige que as publicações resultantes de pesquisa financiada publicamente sejam de acesso aberto imediato. O objetivo é acelerar a descoberta e aumentar a transparência e replicabilidade da investigação.

Esta diretriz tem implicações significativas para a forma como os dados são geridos, arquivados e partilhados. Exige investimento em infraestruturas digitais e formação para que os cientistas possam cumprir estas novas exigências. Embora benéfico para a comunidade científica e para o público, representa também um custo adicional para as instituições de investigação.

Distribuição de Financiamento para P&D no Brasil (2022)

6. Foco em Projetos de Alto Risco e Alta Recompensa

Múltiplas mãos representando diferentes fontes de financiamento que convergem para apoiar a ciência e a investigação globalmente.
O financiamento da ciência está a passar por uma transformação global, moldando o futuro da investigação e inovação em Portugal e no Brasil com novas prioridades e modelos colaborativos.EchoChase / AI-generated

Tradicionalmente, os financiadores públicos são avessos ao risco. No entanto, agências como a DARPA nos EUA ou o novo Conselho Europeu de Inovação (EIC) estão a canalizar financiamento para projetos verdadeiramente disruptivos, que podem falhar, mas que, se bem-sucedidos, têm o potencial de gerar avanços transformadores. Este tipo de financiamento visa preencher a lacuna entre a investigação básica e a inovação tecnológica aplicada.

Em Portugal, o EIC tem sido uma fonte importante de financiamento para startups e PMEs com tecnologias inovadoras. No Brasil, embora com menos modelos específicos para 'alto risco', a FAPESP tem um histórico de apoiar investigações fundamentais que, a longo prazo, levaram a descobertas significativas, como o desenvolvimento de cultivares de cana-de-açúcar mais resistentes.

7. Digitalização Acelerada e Inteligência Artificial na Descoberta

A Inteligência Artificial (IA) e a digitalização estão a revolucionar a forma como a ciência é feita, desde a análise de grandes volumes de dados genómicos até à modelagem de novos materiais. Financiadores estão a priorizar investimentos em infraestruturas de supercomputação, plataformas de dados abertos e formação em IA para cientistas. Gigantes tecnológicos como a Google e a IBM também estão a colaborar com instituições académicas, fornecendo recursos computacionais e expertise.

A aplicação de IA na saúde, por exemplo, para detetar padrões em exames médicos ou prever a progressão de doenças, é uma área de investimento intenso, tanto em Portugal, com o desenvolvimento de centros de dados, como no Brasil, com a aplicação de algoritmos em agricultura de precisão.

8. Financiamento Baseado em Resultados e Impacto Medido

A pressão crescente por prestação de contas significa que os financiadores estão a exigir métricas mais rigorosas de impacto e resultados. Em vez de simplesmente financiar a pesquisa, existe um movimento para 'financiamento por resultados', onde os desembolsos estão ligados ao sucesso de marcos específicos ou ao alcance de objetivos predefinidos. Isto pode incluir patentes, publicações de alto impacto, formação de startups ou implementação de políticas públicas baseadas na evidência.

Este modelo incentiva a eficiência e a relevância da investigação, mas pode também criar pressão indevida para resultados rápidos ou limitar a investigação exploratória, onde os resultados não são imediatamente óbvios. Em Portugal, a avaliação das unidades de I&D pela FCT já considera fortemente a produção científica e o impacto na sociedade e na economia.

A ciência moderna exige uma mentalidade de colaboração e adaptabilidade. O financiamento não é apenas capital, é o oxigénio que alimenta a curiosidade e impulsiona a humanidade para a frente, mas a forma como é distribuído e gerido está a mudar radicalmente. Precisamos de ser ágeis.

Prof. Doutora Ana Sofia Oliveira, Reitora da Universidade Nova de Lisboa

9. Valorização de Soft Skills e Gestão de Projetos

Dado o aumento da complexidade dos projetos, a colaboração multidisciplinar e a necessidade de justificar o impacto, as 'soft skills' e a gestão de projetos científicos tornaram-se cruciais. Os financiadores não procuram apenas excelência científica, mas também equipas capazes de gerir orçamentos substanciais (muitas vezes em milhões de euros), coordenar parceiros internacionais e comunicar eficazmente os resultados a diversos públicos. Programas de formação em liderança científica e gestão de I&D estão a ser cada vez mais promovidos.

No Brasil, a CAPES e o CNPq têm investido em programas que visam capacitar investigadores em gestão e empreendedorismo. Em Portugal, o aumento de centros de transferência de tecnologia nas universidades reflete esta necessidade de colmatar a lacuna entre a pesquisa de bancada e o mercado, exigindo perfis de cientistas com competências amplas.

Fonte de FinanciamentoParticipação Média (%)Vantagens ComunsDesafios Típicos
Governos Nacionais60Estabilidade, longo prazo, pesquisa básicaBurocracia, ciclos políticos, aversão ao risco
Setor Privado25Flexibilidade, inovação aplicada, acesso a mercadoFoco comercial, IP restrições, curto prazo
Fundações Filantrópicas7Foco em impacto, flexibilidade, preenche lacunasMontante variável, tendências específicas, poucas na %
Instituições Multilaterais5Grandes projetos, colaboração internacionalComplexidade, alinhamento de múltiplos interesses
Crowdfunding/Outros3Democratização, nicho, apelo públicoPequenos montantes, exige engajamento, volatilidade
Comparativo de Fontes de Financiamento para P&D (Médias Globais, 2022)

Em suma, o cenário do financiamento da ciência em 2024 é um mosaico complexo e multifacetado. A diversificação das fontes de financiamento, a crescente exigência de impacto e transparência, e a valorização de novas competências moldam o futuro da descoberta científica. Para Portugal e Brasil, adaptar-se a estas tendências não é apenas uma questão de competitividade, mas de garantir que a investigação continua a contribuir de forma significativa para o bem-estar social e o progresso económico.

Perguntas Frequentes

Como o financiamento privado está a mudar a pesquisa científica?

O financiamento privado, que inclui investimento de empresas e fundações filantrópicas, complementa o capital público, permitindo maior flexibilidade e apoio a projetos de alto risco. Este aumento direcciona a pesquisa para áreas com potencial de inovação tecnológica e impacto social direto, acelerando a translação de descobertas para aplicações práticas.

O que é 'Ciência Aberta' e por que é importante para os financiadores?

Ciência Aberta (Open Science) é um movimento que promove o acesso livre e gratuito a publicações científicas, dados de pesquisa e metodologias, tornando-os disponíveis a todos. Para os financiadores, é importante porque aumenta a transparência, a replicabilidade dos estudos e acelera o progresso científico, permitindo que mais investigadores construam sobre o conhecimento existente.

Como o crowdfunding científico funciona?

Crowdfunding científico é o processo de angariar fundos para projetos de pesquisa diretamente de um grande número de indivíduos, geralmente através de plataformas online. Os investigadores apresentam as suas ideias ao público, que pode contribuir com pequenas quantias. É uma forma de financiar projetos inovadores ou de nicho que podem não atrair financiamento tradicional, e também promove o engajamento público com a ciência.

Quais são os principais desafios para o financiamento da ciência em Portugal e no Brasil?

Em Portugal e no Brasil, os principais desafios incluem a sustentabilidade do financiamento público, a burocracia excessiva nos processos de candidatura e gestão, a necessidade de fortalecer a ligação entre academia e indústria, e a atração e retenção de talento científico. A flutuação cambial no Brasil e a dependência de fundos europeus em Portugal também são fatores relevantes.

O que significa 'financiamento por resultados' na ciência?

Financiamento por resultados refere-se a modelos onde o desembolso de fundos está condicionado ao alcance de marcos específicos ou objetivos predefinidos no projeto de pesquisa. Em vez de simplesmente financiar atividades, foca-se no impacto e nos resultados mensuráveis, como publicações, patentes, ou a aplicação prática das descobertas, incentivando a eficiência e a relevância da investigação.

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