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O Guia Completo do Open Finance no Brasil e em Portugal

Um mergulho profundo no sistema que está a revolucionar os serviços financeiros, permitindo que partilhe os seus dados bancários de forma segura para obter melhores produtos e experiências.

Por Mariana Campos8 min de leituraSão Paulo, BRA
Uma pessoa a utilizar uma aplicação financeira num smartphone, ilustrando o conceito de Open Finance através da partilha segura de dados entre instituições.
EchoChase / AI-generated

O Open Finance, ou Sistema Financeiro Aberto, representa uma mudança de paradigma na forma como interagimos com as nossas finanças. Trata-se de um sistema regulado que permite aos clientes bancários partilharem as suas informações financeiras de forma segura e padronizada com diferentes instituições, como bancos, fintechs e outras prestadoras de serviços. O objetivo é fomentar a competição, a inovação e oferecer aos consumidores produtos e serviços mais personalizados, mais baratos e mais eficientes. Em vez de os seus dados ficarem presos numa única instituição, o utilizador torna-se o verdadeiro proprietário das suas informações, decidindo com quem e para que finalidade as partilha.

O que é o Open Finance e Como Funciona?

Na sua essência, o Open Finance assenta na ideia de que os dados financeiros pertencem ao cliente, e não ao banco. Para que isto funcione na prática, os reguladores (como o Banco Central do Brasil e o Banco de Portugal) obrigam as instituições financeiras a criar canais de comunicação seguros e padronizados. Estes canais são conhecidos como APIs, ou Interfaces de Programação de Aplicações. Uma API funciona como uma ponte tecnológica que permite que dois sistemas diferentes conversem entre si de forma segura e controlada.

Quando um consumidor quer usar um serviço de uma fintech, por exemplo, um agregador de contas que mostra todos os seus saldos e despesas num único lugar, ele autoriza essa fintech a aceder aos seus dados no seu banco principal. Esta autorização, ou consentimento, é temporária, específica e pode ser revogada a qualquer momento. A fintech, através da API do banco, solicita os dados autorizados (como saldo da conta à ordem ou histórico de transações). O banco verifica o consentimento e envia os dados de volta para a fintech de forma encriptada. Todo este processo ocorre em segundos, sem que o utilizador precise de partilhar as suas senhas de acesso ao banco. O controlo está sempre nas mãos do consumidor.

A Evolução: Do Open Banking ao Open Finance

Os termos "Open Banking" e "Open Finance" são muitas vezes usados de forma intercambiável, mas representam fases diferentes de uma mesma evolução. O Open Banking foi o primeiro passo, focando-se exclusivamente na partilha de dados relacionados com contas bancárias tradicionais – contas à ordem, poupanças e cartões de crédito. O Reino Unido foi um dos pioneiros globais nesta área, lançando a sua iniciativa de Open Banking em 2018.

O Open Finance é a expansão natural deste conceito. Ele amplia o escopo de dados que podem ser partilhados para incluir todo o universo financeiro de uma pessoa. Isto abrange produtos de investimento, seguros, fundos de pensões, câmbio e muito mais. O Brasil optou por adotar diretamente o termo e o conceito mais abrangente de Open Finance desde o início da sua implementação, sinalizando uma ambição maior desde o começo. Em Portugal e na restante União Europeia, a transição do Open Banking (fomentado pela Diretiva de Serviços de Pagamento 2, ou PSD2) para um Open Finance mais completo está a acontecer de forma gradual, impulsionada pelo mercado e por futuras regulações.

Open Finance no Brasil: Uma Revolução Liderada pelo Banco Central

No Brasil, o Open Finance não é apenas uma tendência, mas uma política estrutural do Banco Central do Brasil (BCB). A implementação foi desenhada em quatro fases, iniciadas em fevereiro de 2021, obrigando centenas de instituições a participar. Esta abordagem centralizada e mandatória acelerou drasticamente a adoção no país, tornando o ecossistema brasileiro um dos mais avançados do mundo. A primeira fase focou-se na partilha de dados das próprias instituições (canais de atendimento, produtos). A segunda abriu a partilha de dados de clientes (com consentimento). A terceira introduziu a iniciação de pagamentos e propostas de crédito. A quarta e última fase está a expandir o escopo para incluir seguros, investimentos e pensões.

O sucesso do Open Finance no Brasil está intimamente ligado ao sucesso de outra inovação do BCB: o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos. A funcionalidade de Iniciação de Transação de Pagamento (ITP) dentro do Open Finance permite que um utilizador inicie um pagamento via Pix diretamente a partir do site ou aplicação de um lojista ou de uma fintech, sem precisar de abrir a aplicação do seu banco. Isto torna os pagamentos online mais fluidos e baratos, desafiando o domínio dos cartões de crédito. De acordo com dados do BCB, no final de 2023, o Brasil já contava com mais de 45 milhões de consentimentos ativos, demonstrando uma forte adesão por parte dos consumidores.

Crescimento de Consentimentos Ativos no Open Finance Brasil

Open Finance em Portugal: Harmonização Europeia e Oportunidades Locais

Em Portugal, o caminho para o Open Finance é pavimentado pela legislação europeia, especificamente a PSD2, que entrou em vigor em 2018. Esta diretiva obrigou os bancos de toda a União Europeia a fornecer acesso a dados de contas de pagamento (AISP) e a permitir a iniciação de pagamentos (PISP) por terceiros licenciados. A implementação é supervisionada a nível nacional pelo Banco de Portugal. Ao contrário do modelo brasileiro, a abordagem europeia foi menos prescritiva nos detalhes técnicos, o que resultou numa maior fragmentação inicial das APIs e numa adoção mais lenta por parte dos consumidores.

Apesar do ritmo mais moderado, o ecossistema português está a amadurecer. Grandes bancos como a Caixa Geral de Depósitos, o Millennium BCP e o Santander Totta disponibilizam portais de APIs para programadores. Fintechs, tanto nacionais como internacionais (como a Revolut), utilizam estas APIs para oferecer serviços inovadores, como ferramentas de gestão de finanças pessoais que agregam contas de vários bancos. Estima-se que a utilização de APIs de Open Banking em Portugal tenha crescido mais de 40% em 2023. O próximo passo regulatório, a proposta da Comissão Europeia para a PSD3 e o Regulamento de Serviços de Pagamento (PSR), juntamente com o novo quadro para o Acesso a Dados Financeiros (FIDA), promete acelerar a transição para um verdadeiro Open Finance, cobrindo um leque mais vasto de produtos financeiros.

O Open Finance transfere o poder para o consumidor. Deixamos de ser reféns de um único banco para nos tornarmos curadores exigentes do nosso próprio ecossistema financeiro.

Diogo Ferreira, CEO da Fintech Inverta

Principais Benefícios para Consumidores e Empresas

A promessa central do Open Finance é um mercado financeiro mais justo e eficiente. Para os consumidores, os benefícios são tangíveis. Imagine poder comparar e contratar um crédito habitação em minutos, porque o novo banco consegue analisar instantaneamente o seu histórico financeiro completo (com a sua permissão), em vez de lhe pedir dezenas de documentos. Ou usar uma aplicação que não só mostra os seus gastos, mas também sugere automaticamente onde pode poupar ou investir melhor, com base nos seus padrões de consumo em todas as suas contas. A competição acrescida também tende a baixar as taxas e a melhorar a qualidade dos serviços.

Para as empresas, especialmente as pequenas e médias, o Open Finance abre portas para um acesso mais fácil ao crédito, com análises de risco mais precisas e rápidas. As fintechs florescem neste ambiente, criando novos modelos de negócio que antes eram impossíveis. Mesmo os bancos tradicionais, inicialmente vistos como os "ameaçados" por esta abertura, encontram oportunidades para inovar, criar parcerias e oferecer novas experiências aos seus clientes, mantendo-se relevantes numa paisagem em rápida mudança.

FuncionalidadeModelo TradicionalModelo com Open Finance
Visão geral das finançasAceder a cada aplicação bancária separadamenteVer todas as contas, cartões e investimentos numa única aplicação
Pedido de créditoProcesso manual, demorado, com envio de vários documentosAnálise de crédito instantânea e automatizada com base no histórico partilhado
Pagamentos onlineInserir dados do cartão ou usar intermediários com taxasIniciar pagamento direto da conta (via Pix no Brasil) com um clique, de forma mais barata
Recomendação de produtosOfertas genéricas do seu banco principalProdutos e serviços personalizados de diversas empresas, com base no seu perfil completo
PortabilidadeMudar de banco é um processo burocrático e complexoMais fácil comparar ofertas e mover relacionamentos financeiros para melhores condições
Comparativo: Experiência Financeira Tradicional vs. Open Finance

Riscos, Segurança e Proteção de Dados

A ideia de partilhar dados financeiros sensíveis levanta, naturalmente, questões sobre segurança e privacidade. Os reguladores estão cientes destes riscos e construíram o ecossistema do Open Finance com várias camadas de proteção. A principal regra é o consentimento: nenhuma partilha de dados pode ocorrer sem a autorização explícita, granular e informada do cliente. O cliente deve saber exatamente que dados está a partilhar, com quem, por quanto tempo e para que finalidade.

A segurança tecnológica é outro pilar. Todas as comunicações via APIs são encriptadas e seguem padrões de segurança rigorosos. A autenticação do cliente é sempre robusta, exigindo geralmente mais do que uma simples senha – é a chamada Autenticação Forte do Cliente (SCA), que pode envolver biometria ou um código enviado para o telemóvel. Além disso, todas as instituições participantes (bancos e fintechs) devem ser licenciadas e supervisionadas pelos respetivos bancos centrais. A nível legal, o tratamento destes dados é regido pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no Brasil e pelo Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) em Portugal e na UE, que impõem regras estritas sobre como os dados pessoais podem ser recolhidos, usados e armazenados.

Perguntas Frequentes

É seguro partilhar os meus dados através do Open Finance?

Sim, o sistema foi desenhado com alta segurança. A partilha de dados só acontece com o seu consentimento explícito e através de canais encriptados (APIs). Além disso, as empresas participantes são reguladas por autoridades como o Banco Central do Brasil e o Banco de Portugal, e os seus dados são protegidos por leis como a LGPD e o RGPD.

Sou obrigado a participar no Open Finance?

Não, a adesão ao Open Finance é totalmente voluntária para os consumidores. Você tem total controlo e decide se quer ou não partilhar os seus dados para usufruir dos serviços oferecidos. A participação das instituições financeiras é que pode ser obrigatória, para garantir que elas ofereçam a infraestrutura necessária.

Que tipo de empresas podem aceder aos meus dados?

Apenas instituições financeiras e de pagamento devidamente autorizadas e reguladas pelos bancos centrais podem participar no ecossistema Open Finance. Isto inclui bancos, fintechs, cooperativas de crédito e outras prestadoras de serviços financeiros que cumpram rigorosos requisitos de segurança e operacionais.

O Open Finance tem custos para o consumidor?

Geralmente, não. A partilha de dados em si é gratuita para o consumidor. O objetivo do Open Finance é, na verdade, reduzir custos através do aumento da concorrência, o que pode levar a produtos e serviços financeiros mais baratos para si, como taxas de juro mais baixas ou isenção de anuidades.

Como posso cancelar um consentimento de partilha de dados?

Pode cancelar um consentimento a qualquer momento, de forma fácil e digital. Normalmente, pode fazê-lo tanto na aplicação da empresa com quem partilhou os dados como diretamente na aplicação ou site do seu próprio banco, onde existe uma área dedicada à gestão de todos os seus consentimentos ativos do Open Finance.

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