Biosfera

9 Animais em Risco de Extinção no Brasil e em Portugal que Precisam da Nossa Ajuda

A perda de biodiversidade acelera-se, e estas nove espécies emblemáticas do Brasil e de Portugal enfrentam uma batalha crítica pela sobrevivência, exigindo ações de conservação urgentes e coordenadas.

Por Sofia Almeida Costa9 min de leituraLisboa, PRT1 leituras
Um mico-leão-dourado, um dos animais em risco de extinção no Brasil e em Portugal, agarra-se a um ramo na Mata Atlântica.
EchoChase / AI-generated

A crise da biodiversidade é uma realidade inegável, com milhares de espécies a caminhar para o desaparecimento. A situação é particularmente grave em países megadiversos como o Brasil e em nações com ecossistemas únicos como Portugal. Esta lista destaca nove animais em risco de extinção no Brasil e em Portugal, desde a icónica onça-pintada da Amazónia ao resiliente lobo-ibérico das serras portuguesas. Compreender as ameaças que enfrentam — da desflorestação à poluição e ao conflito com humanos — é o primeiro passo para garantir a sua sobrevivência.

1. Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) - Brasil

Símbolo da luta pela conservação da Mata Atlântica, o mico-leão-dourado é um caso de sucesso relativo que ainda inspira cuidados. A sua pelagem laranja vibrante tornou-o famoso, mas a destruição do seu habitat, que se estende principalmente pelo estado do Rio de Janeiro, quase o levou à extinção. Nos anos 1970, a sua população selvagem foi reduzida a cerca de 200 indivíduos. Um esforço monumental de conservação, liderado pela Associação Mico-Leão-Dourado, envolveu a reprodução em cativeiro e a reintrodução na natureza.

Hoje, a população recuperou para aproximadamente 2.500 indivíduos, segundo estimativas da associação. No entanto, a espécie ainda está classificada como "Em Perigo" (EN) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A fragmentação da floresta continua a ser a principal ameaça, isolando grupos e limitando a diversidade genética. A construção de viadutos vegetados sobre autoestradas, como a BR-101, é uma das estratégias inovadoras para reconectar fragmentos de floresta e permitir que os micos se desloquem em segurança.

2. Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) - Portugal

O lobo-ibérico é o maior predador terrestre de Portugal e um animal de profundo significado cultural, envolto em mitos e folclore. Historicamente perseguido por ser considerado uma ameaça ao gado, a sua população foi dizimada em grande parte da Península Ibérica. Em Portugal, a espécie sobrevive principalmente a norte do rio Douro, com uma população estimada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em cerca de 300 indivíduos, distribuídos por 50 alcateias.

Embora seja uma espécie estritamente protegida por lei desde 1988, o lobo-ibérico continua a enfrentar ameaças significativas. A principal é o conflito com as atividades humanas, especialmente a pecuária, que pode levar a abates ilegais. A fragmentação do seu habitat devido à construção de estradas e outras infraestruturas isola as populações e aumenta a mortalidade por atropelamento. Projetos como o LIFE WolFlux visam melhorar a coexistência entre lobos e comunidades locais, promovendo medidas de proteção do gado e compensando os prejuízos dos pastores.

3. Onça-pintada (Panthera onca) - Brasil

Como o maior felino das Américas, a onça-pintada é uma espécie-chave para a saúde dos ecossistemas onde habita, desde a Amazónia até ao Pantanal e à Mata Atlântica. No Brasil, está classificada como "Vulnerável" (VU), mas em biomas como a Mata Atlântica e a Caatinga, a situação é mais grave, sendo considerada "Criticamente em Perigo" (CR). A principal ameaça é a perda e fragmentação do habitat, impulsionada pela expansão da agropecuária. Estima-se que a Mata Atlântica, por exemplo, retenha menos de 12% da sua cobertura original.

O conflito com humanos é outra causa importante de mortalidade. À medida que o seu habitat diminui, as onças aproximam-se de áreas de criação de gado, levando a retaliações por parte dos fazendeiros. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Grandes Felinos, que implementa estratégias como a criação de corredores ecológicos e o fomento de práticas de convivência, como o turismo de observação no Pantanal, que gera receita e valoriza o animal vivo.

Cada espécie que desaparece é uma peça que se perde no complexo puzzle da vida. A conservação não é uma escolha, é uma necessidade para a nossa própria sobrevivência.

Dr.ª Helena Marques, Bióloga da Conservação

4. Lince-ibérico (Lynx pardinus) - Portugal

A história do lince-ibérico é um dos mais notáveis exemplos de recuperação de espécies no mundo. No início do século XXI, este felino esquivo estava à beira da extinção, com menos de 100 indivíduos confinados a duas populações isoladas em Espanha. Graças a um massivo programa de conservação ibérico (Espanha e Portugal), que envolveu reprodução em cativeiro e reintrodução na natureza, a população total ultrapassou os 1.600 indivíduos em 2022.

Em Portugal, a reintrodução começou em 2015 no Parque Natural do Vale do Guadiana, no Alentejo. O sucesso do projeto depende criticamente da abundância da sua principal presa, o coelho-bravo, cujas populações têm sido afetadas por doenças. A mortalidade por atropelamento continua a ser uma grande ameaça, exigindo a implementação de passagens de fauna em pontos críticos. O lince-ibérico passou de "Criticamente em Perigo" para "Em Perigo", um passo significativo, mas a sua sobrevivência a longo prazo ainda não está garantida.

Recuperação da População de Lince-Ibérico (Península Ibérica)

5. Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) - Brasil

Famosa mundialmente pelo filme de animação *Rio*, a ararinha-azul representa uma história dramática de extinção e esperança. Endémica da Caatinga baiana, a espécie foi declarada extinta na natureza em 2000, vítima do tráfico ilegal de animais e da destruição do seu habitat específico, os caraibeirais (matas de galeria com a árvore Caraibeira). A sua sobrevivência dependia inteiramente de uma pequena população mantida em cativeiro por criadores privados em todo o mundo.

Após anos de negociações diplomáticas e um complexo programa de reprodução genética, um projeto de reintrodução foi iniciado. Em junho de 2022, as primeiras oito ararinhas-azuis foram soltas na natureza em Curaçá, na Bahia, numa área de conservação especialmente criada. Este é um esforço de longo prazo, gerido pela organização alemã Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP) em parceria com o governo brasileiro. O sucesso dependerá da adaptação das aves e do combate contínuo às ameaças que as levaram à extinção em primeiro lugar.

6. Saramugo (Anaecypris hispanica) - Portugal

Nem só de grandes mamíferos e aves coloridas vive a biodiversidade ameaçada. O saramugo é um pequeno peixe de água doce (um ciprinídeo) que só existe na bacia do rio Guadiana, em Portugal e Espanha. É considerado um dos vertebrados mais ameaçados da Europa. A sua população sofreu um declínio dramático superior a 80% nas últimas décadas, colocando-o na categoria "Criticamente em Perigo".

As ameaças são múltiplas: a poluição da água por efluentes agrícolas e urbanos, a construção de barragens que alteram o fluxo dos rios e criam barreiras intransponíveis, a extração excessiva de água para rega e a introdução de espécies de peixes exóticas e predadoras. O projeto LIFE Saramugo, cofinanciado pela União Europeia, trabalha para recuperar o habitat do peixe, melhorar a qualidade da água e sensibilizar as populações locais para a importância deste pequeno mas valioso indicador da saúde dos nossos rios.

EspécieStatus IUCN (Global)População Selvagem EstimadaPrincipais Ameaças
Mico-leão-douradoEm Perigo (EN)~2.500Fragmentação do habitat, isolamento genético
Lobo-ibéricoVulnerável (VU)~2.500 (Península Ibérica)Conflito com a pecuária, atropelamento
Onça-pintadaQuase Ameaçada (NT)~170.000Desflorestação, caça retaliatória
Lince-ibéricoEm Perigo (EN)~2.000Doenças das presas (coelho), atropelamento
Boto-cor-de-rosaEm Perigo (EN)Desconhecida (em declínio)Poluição por mercúrio, barragens, captura acidental
Estado de Conservação e Ameaças Principais de Espécies Selecionadas

7. Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) - Brasil

Com as suas pernas longas e finas e pelagem avermelhada, o lobo-guará é uma figura única do Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil. Este canídeo não é um lobo verdadeiro, sendo o único membro do seu género. A sua dieta é omnívora, com grande parte composta por frutos, especialmente a "fruta-do-lobo" (lobeira). O seu papel como dispersor de sementes é vital para a manutenção do ecossistema.

Classificado como "Quase Ameaçado" (NT) pela IUCN, o lobo-guará sofre com a rápida conversão do Cerrado em terras para agricultura e pastagem. Mais de 50% do bioma já foi destruído. Esta perda de habitat, juntamente com atropelamentos em estradas que cortam o seu território e a caça por retaliação (embora raramente ataque gado), coloca a sua população sob forte pressão. A sua conservação está intrinsecamente ligada à proteção do que resta do Cerrado.

8. Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) - Portugal

Esta majestosa ave de rapina é endémica da Península Ibérica. Tal como o lince, esteve perto da extinção, mas programas de conservação coordenados permitiram uma recuperação notável, principalmente em Espanha. Em Portugal, a espécie foi considerada extinta como nidificante nos anos 1970, mas recolonizou o território nacional no início do século XXI. Atualmente, a população portuguesa é muito pequena, com cerca de 20 casais reprodutores confirmados, principalmente no Alentejo e na zona fronteiriça do Tejo Internacional.

Embora a tendência populacional seja positiva, a águia-imperial-ibérica, classificada como "Vulnerável" (VU), ainda enfrenta sérias ameaças. A principal causa de mortalidade não natural é a eletrocussão em linhas elétricas e o envenenamento ilegal, frequentemente através de iscos destinados a outros predadores. A escassez da sua presa principal, o coelho-bravo, também limita a sua expansão. A correção de postes elétricos perigosos e a fiscalização rigorosa contra o uso de venenos são cruciais para o seu futuro.

9. Boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) - Brasil

O boto-cor-de-rosa, ou boto-vermelho, é o maior golfinho de rio do mundo e uma figura central no folclore amazónico. A sua coloração rosada única e a sua inteligência fascinam cientistas e turistas. Contudo, esta espécie carismática enfrenta um futuro incerto. Em 2018, a IUCN elevou o seu status para "Em Perigo" (EN), refletindo um declínio populacional alarmante, estimado em até 50% por década em algumas áreas monitorizadas pelo Instituto Mamirauá.

As ameaças são complexas e interligadas. A construção de barragens hidroelétricas fragmenta populações e altera o ciclo hidrológico dos rios. A contaminação por mercúrio, proveniente da mineração ilegal de ouro (garimpo), acumula-se na cadeia alimentar e atinge níveis tóxicos nos botos. Além disso, a captura acidental em redes de pesca e o abate ilegal para uso como isco na pesca da piracatinga (um tipo de peixe-gato) continuam a dizimar a espécie. Proteger o boto significa proteger toda a bacia amazónica de múltiplas agressões.

Perguntas Frequentes

Qual a principal causa da extinção de animais?

A principal causa global da extinção de espécies é a perda e degradação de habitats, impulsionada por atividades humanas como a agricultura, a urbanização, a desflorestação e a mineração. Estas ações destroem os locais onde os animais vivem, se alimentam e se reproduzem.

Qual a diferença entre "em perigo" e "criticamente em perigo"?

Ambas são categorias da Lista Vermelha da IUCN. Uma espécie "Em Perigo" (EN) enfrenta um risco muito elevado de extinção na natureza. Uma espécie "Criticamente em Perigo" (CR) enfrenta um risco extremamente elevado de extinção, sendo a categoria mais grave antes da extinção na natureza.

A reintrodução de espécies como a ararinha-azul realmente funciona?

Sim, a reintrodução pode funcionar, como demonstram os casos do lince-ibérico e, potencialmente, da ararinha-azul. No entanto, são projetos extremamente complexos, caros e de longo prazo, que exigem a restauração do habitat e o combate às ameaças originais para terem sucesso sustentado.

Como posso ajudar na conservação de animais em Portugal e no Brasil?

Pode ajudar de várias formas: doando para organizações de conservação fidedignas, participando em programas de voluntariado, praticando o turismo ecológico responsável, reduzindo o seu impacto ambiental e exigindo que os governos implementem e fiscalizem leis de proteção à biodiversidade.

O que é a Lista Vermelha da IUCN?

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) é o inventário mais completo do mundo sobre o estado de conservação global de espécies de plantas e animais. Ela classifica as espécies em categorias de risco, servindo como uma ferramenta crucial para orientar as ações de conservação.

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