Biosfera

O que é o Cerrado e porque é que a sua conservação é tão importante?

Conhecido como a savana mais biodiversa do mundo, o Cerrado brasileiro enfrenta ameaças crescentes que colocam em risco o seu futuro e o equilíbrio climático global.

Por Sofia Carvalho7 min de leituraBrasília, BR
Paisagem característica do Cerrado brasileiro, mostrando suas árvores retorcidas e vegetação de campo sob um céu de pôr do sol, ilustrando o que é o Cerrado.
EchoChase / AI-generated

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando cerca de 22% do território brasileiro. Trata-se da savana com a maior biodiversidade do planeta, um mosaico de paisagens que vão de campos abertos a florestas densas. A sua conservação é fundamental não só para as milhares de espécies que nele habitam, mas também para a segurança hídrica do Brasil e para a regulação do clima global, devido à sua capacidade de armazenar carbono.

O que é o Cerrado?

O Cerrado é um bioma Neotropical do tipo savana, caracterizado por uma imensa diversidade de fisionomias que variam desde formações campestres, como o campo limpo, até florestais, como o cerradão. Localizado no planalto central do Brasil, estende-se por estados como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, e o Distrito Federal, com pequenas porções no Paraguai e na Bolívia.

As suas árvores e arbustos são tipicamente de porte médio, com troncos tortuosos, casca grossa e folhas resistentes. Estas são adaptações evolutivas a condições como a seca sazonal e a ocorrência natural de incêndios. A paisagem não é homogénea; é um complexo mosaico vegetacional que inclui campos, savanas e florestas, cada um com a sua própria ecologia e conjunto de espécies.

Apesar da aparência por vezes árida durante a estação seca, o Cerrado possui uma resiliência notável. Muitas plantas têm sistemas radiculares extremamente profundos, que podem chegar a mais de 15 metros, permitindo-lhes aceder a água em lençóis freáticos profundos. Esta característica não só garante a sobrevivência da planta, mas também contribui significativamente para o ciclo da água na região.

Quão rica é a biodiversidade do Cerrado?

A biodiversidade do Cerrado é extraordinariamente rica, o que lhe conferiu o título de savana mais biodiversa do mundo. Abriga cerca de 5% de todas as espécies do planeta. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, o bioma conta com mais de 11.600 espécies de plantas nativas, das quais cerca de 4.400 são endémicas, ou seja, não existem em mais nenhum outro lugar.

A fauna é igualmente impressionante. O bioma é o lar de aproximadamente 200 espécies de mamíferos, como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, a onça-pintada e o tatu-canastra. A avifauna é vasta, com mais de 850 espécies de aves registadas, incluindo a seriema e a arara-canindé. Além disso, há uma enorme diversidade de insetos, répteis e anfíbios, muitos dos quais ainda estão a ser descobertos e catalogados pela ciência. Toda esta vida depende da integridade do ecossistema.

Muitas pessoas olham para a Amazónia como o grande pulmão e reservatório de vida, e é. Mas esquecem-se que o Cerrado é o coração que bombeia a água para grande parte do continente e um tesouro de biodiversidade único por si só.

Dr.ª Mariana Sampaio, Ecóloga da Universidade de Brasília (UnB)

Porque é que o Cerrado é conhecido como o "berço das águas" do Brasil?

O Cerrado é fundamental para a segurança hídrica do Brasil, o que lhe valeu a alcunha de "caixa-d'água" ou "berço das águas" do país. A sua localização geográfica central e a sua vegetação única funcionam como uma gigantesca esponja natural. A chuva que cai sobre o bioma infiltra-se no solo graças às raízes profundas da sua vegetação, recarregando alguns dos mais importantes aquíferos da América do Sul, como o Guarani, o Bambuí e o Urucuia.

Essa água subterrânea, por sua vez, alimenta as nascentes de rios que formam oito das doze grandes bacias hidrográficas brasileiras. Entre elas estão as bacias Amazónica, do Tocantins-Araguaia, do Paraná-Paraguai e do São Francisco. Isto significa que a saúde do Cerrado afeta diretamente a disponibilidade de água para milhões de pessoas, para a agricultura irrigada em outras regiões e para a produção de energia hidroelétrica em todo o Brasil. A desflorestação do Cerrado compromete essa capacidade de recarga, aumentando o escoamento superficial e o risco de secas e cheias.

AnoDesmatamento no Cerrado (km²)Desmatamento na Amazónia (km²)
20207.3408.425
20218.53113.038
202210.68911.594
20237.8285.153
Comparativo de Desmatamento (km²) por Bioma no Brasil

Quais são as principais ameaças à conservação do Cerrado?

A principal ameaça ao Cerrado é, de longe, a expansão da fronteira agropecuária. A conversão de vegetação nativa para pastagens destinadas à pecuária e, mais recentemente, para o cultivo de monoculturas como soja, milho e algodão, é a causa da perda de mais de metade da cobertura original do bioma. Esta pressão é particularmente intensa na região conhecida como MATOPIBA, um acrónimo para os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Este rápido avanço é impulsionado por uma legislação ambiental menos restritiva em comparação com a Amazónia. O Código Florestal Brasileiro exige que proprietários de terras no Cerrado preservem apenas 20% a 35% da vegetação nativa nas suas propriedades (a chamada Reserva Legal), enquanto na Amazónia Legal essa exigência é de 80%. Esta diferença legal, juntamente com a topografia plana e solos que respondem bem à correção de pH e fertilização, tornou o Cerrado o alvo preferencial da expansão agrícola no Brasil.

Outras ameaças incluem a construção de grandes projetos de infraestrutura, como barragens e estradas, a mineração, a expansão urbana desordenada e o aumento da frequência de incêndios de grande escala, muitas vezes iniciados para "limpar" terrenos para a agricultura. Juntos, estes fatores fragmentam o habitat, isolam populações de animais e plantas, poluem os solos e a água com agrotóxicos e comprometem os serviços ecossistémicos vitais que o bioma fornece.

Percentagem de Cobertura Original do Cerrado Perdida

Que políticas e soluções existem para proteger o Cerrado?

Existem diversas estratégias a serem implementadas para proteger o que resta do Cerrado e restaurar áreas degradadas. Estas soluções passam pela combinação de políticas públicas, inovação no agronegócio, valorização dos produtos da sociobiodiversidade e a consciencialização da sociedade.

No campo das políticas públicas, é crucial fortalecer a fiscalização contra o desmatamento ilegal e expandir as Unidades de Conservação e Terras Indígenas, que são as áreas mais preservadas do bioma. O aprimoramento de planos como o PPCerrado (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado) é fundamental. Além disso, discute-se a necessidade de uma legislação específica que proteja o bioma de forma mais eficaz, talvez equiparando as exigências de Reserva Legal às da Amazónia.

O setor privado também tem um papel vital. A adoção de práticas de agricultura de baixo carbono, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e a expansão da produção agrícola sobre áreas de pastagens já degradadas, em vez de sobre nova vegetação nativa, são caminhos promissores. Mecanismos de mercado, como certificações de soja responsável (a exemplo da Round Table on Responsible Soy - RTRS) e pagamentos por serviços ambientais (PSA), podem incentivar financeiramente os produtores a conservar.

Finalmente, a valorização das comunidades tradicionais, como os geraizeiros, quilombolas e vazanteiros, que vivem no Cerrado há gerações e detêm um conhecimento profundo sobre o seu manejo sustentável, é essencial. O apoio a cadeias produtivas baseadas em frutos nativos, como o pequi, o baru e a castanha de cajuí, pode gerar rendimento e, ao mesmo tempo, manter a floresta em pé.

Perguntas Frequentes

O Cerrado é um tipo de deserto?

Não, o Cerrado não é um deserto. É classificado como uma savana, um bioma caracterizado pela coexistência de árvores, arbustos e gramíneas. Possui duas estações bem definidas, uma seca (inverno) e uma chuvosa (verão), e é extremamente rico em água e biodiversidade, ao contrário dos desertos.

A agricultura pode coexistir com a conservação do Cerrado?

Sim, a coexistência é possível e necessária. A solução passa por direcionar a expansão agrícola para os milhões de hectares de pastagens já degradadas, em vez de desmatar novas áreas. A adoção de tecnologias de intensificação sustentável, como a integração lavoura-pecuária-floresta, permite produzir mais no mesmo espaço, poupando a vegetação nativa.

Qual a diferença entre o Cerrado e a Caatinga?

O Cerrado é uma savana tropical com estações seca e chuvosa bem definidas, enquanto a Caatinga, localizada no Nordeste do Brasil, é um bioma de floresta estacional seca (semiárido). A Caatinga tem chuvas muito mais escassas e irregulares, e a sua vegetação é adaptada a longos períodos de estiagem, com muitas plantas que perdem as folhas e cactos.

Que produtos vêm do Cerrado?

O Cerrado oferece uma grande variedade de frutos, sementes e plantas com grande potencial económico e gastronómico. Alguns dos mais conhecidos são o pequi, o baru (uma castanha de alto valor nutritivo), a cagaita, o murici, o araticum e o cajuí (caju do cerrado). Estes produtos sustentam muitas comunidades locais e estão a ganhar destaque na alta gastronomia.

O fogo é sempre mau para o Cerrado?

Não necessariamente. O Cerrado evoluiu com a presença do fogo e muitas das suas espécies vegetais são adaptadas a incêndios naturais e de baixa intensidade, que ocorrem esporadicamente. O problema são os incêndios de grande escala e alta frequência, muitas vezes causados pelo ser humano para desmatamento, que destroem o ecossistema e empobrecem o solo.

Como te chegou?

Leitura relacionada

Pesquisa em destaque