Biosfera

5 Mitos Desvendados Sobre os Efeitos do Fumo de Incêndios na Saúde

O fumo de incêndios florestais é uma ameaça crescente, mas muitos equívocos persistem sobre seus reais impactos na saúde humana.

Por Dr. Matias Pereira6 min de leituraLisboa, PORTUGAL
Céu encoberto por uma densa nuvem de fumo cinzento-alaranjado proveniente de um incêndio florestal, com baixa visibilidade.
EchoChase / AI-generated

Os incêndios florestais, um fenómeno cada vez mais comum e intenso em muitas regiões do mundo, incluindo Portugal e o Brasil, libertam grandes quantidades de fumo para a atmosfera. Embora a destruição direta seja visível, os efeitos do fumo de incêndios na saúde humana são frequentemente subestimados e mal compreendidos. Este artigo irá desvendar os cinco mitos mais persistentes em torno da inalação de fumo de incêndios, focando nos riscos associados à exposição a partículas finas (PM2.5) e seu impacto na saúde cardiovascular e respiratória.

Mito 1: O fumo de incêndios é apenas um irritante temporário para as pessoas com asma.

A verdade é que o fumo de incêndios é muito mais do que um simples irritante. Ele contém uma mistura complexa de gases e partículas finas, com destaque para as partículas inaláveis com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros (PM2.5). Estas partículas são tão pequenas que podem penetrar profundamente nos pulmões e até mesmo entrar na corrente sanguínea, causando uma cascata de problemas de saúde.

Para além da asma, a exposição ao PM2.5 proveniente do fumo de incêndios tem sido consistentemente associada a um aumento nas hospitalizações por doenças respiratórias, como bronquite e pneumonia, e exacerbamentos de doenças pulmonares obstrutivas crónicas (DPOC). Um estudo da Universidade de Lisboa, publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health, demonstrou um aumento de 15% nas admissões hospitalares por problemas respiratórios durante períodos de alta concentração de fumo em Portugal. Os riscos não se limitam apenas ao sistema respiratório; a inflamação sistémica causada pelo PM2.5 pode afetar quase todos os órgãos do corpo.

Mito 2: Apenas pessoas com doenças pré-existentes correm risco significativo de complicações graves.

Embora pessoas com condições respiratórias ou cardíacas pré-existentes sejam de facto mais vulneráveis, a exposição ao fumo de incêndios representa um risco para todos. Adultos saudáveis, crianças e idosos podem desenvolver novos problemas de saúde ou experimentar agravamento de condições latentes. A Academia Americana de Pediatria alerta que as crianças são especialmente suscetíveis devido aos seus sistemas respiratórios ainda em desenvolvimento e à sua maior taxa de respiração por quilograma de peso corporal.

Um relatório da Agência Europeia do Ambiente revelou que a exposição de curto prazo a altos níveis de PM2.5 em toda a Europa, incluindo Portugal, pode aumentar o risco de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em indivíduos sem histórico de doença cardiovascular. As partículas finas podem causar inflamação nos vasos sanguíneos, levando a coagulação e endurecimento das artérias. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam um aumento de até 20% nas consultas de emergência relacionadas a problemas cardíacos em cidades próximas a grandes focos de incêndio durante a estação seca.

Mito 3: Fechar as janelas e usar uma máscara de pano é proteção suficiente contra o fumo.

Infelizmente, esta é uma conceção perigosa. Embora fechar as janelas possa ajudar a reduzir a entrada de partículas maiores, o PM2.5 é tão pequeno que pode facilmente infiltrar-se através de fendas e aberturas mínimas. As máscaras de pano, largamente utilizadas durante a pandemia, oferecem pouquíssima ou nenhuma proteção contra as partículas de fumo, pois não são concebidas para filtrar partículas tão pequenas.

A única máscara eficaz contra o PM2.5 do fumo é uma N95 ou FFP2, utilizada corretamente. Não há substituto para a filtração adequada quando a qualidade do ar é perigosa.

Dr. Ana Costa, Pneumologista do Hospital de Santa Maria

Para uma proteção eficaz dentro de casa, é crucial usar purificadores de ar com filtros HEPA. Estes filtros são capazes de remover até 99,97% das partículas de 0,3 micrômetros ou maiores. Em situações de fumo intenso, também é aconselhável limitar as atividades ao ar livre e, se possível, procurar abrigos comunitários com sistemas de purificação de ar. Muitos municípios em Portugal, como o de Monchique após os incêndios de 2018, têm implementado planos de contingência que incluem a disponibilização de espaços com ar filtrado.

Mito 4: Os riscos para a saúde desaparecem assim que o fumo se dissipa.

Céu encoberto por uma densa nuvem de fumo cinzento-alaranjado proveniente de um incêndio florestal, com baixa visibilidade.
O fumo de incêndios florestais é uma ameaça crescente, mas muitos equívocos persistem sobre seus reais impactos na saúde humana.EchoChase / AI-generated

Os efeitos do fumo de incêndios podem ter consequências a longo prazo, mesmo após a dispersão visível da fumaça. Estudos longitudinais têm demonstrado que a exposição aguda e crónica ao PM2.5 está ligada a um risco aumentado de doenças crónicas, incluindo cancro do pulmão, doenças cardiovasculares e problemas neurológicos.

Um estudo publicado na revista Lancet Planetary Health, com dados de várias regiões afetadas por incêndios, incluindo zonas da Austrália e Califórnia que têm paralelos com os ecossistemas do Brasil, sugere que cada aumento de 10 μg/m³ na concentração de PM2.5 pode aumentar o risco de mortalidade por todas as causas em 4% a 8% nos anos subsequentes à exposição. A investigação continua a explorar a relação entre a exposição ao fumo de incêndios e condições como a demência e doenças neurodegenerativas, um campo emergente com implicações significativas para a saúde pública global.

Mito 5: A qualidade do ar dentro de casa é sempre segura, independentemente do que acontece lá fora.

Este é outro mito perigoso. A qualidade do ar interior pode ser significativamente afetada pelo fumo de incêndios florestais. Como mencionado, as partículas PM2.5 são muito pequenas para serem bloqueadas por selos de janelas comuns. Além disso, o fumo pode entrar através de sistemas de ventilação, exaustores e até mesmo em roupas e cabelos de pessoas que estiveram no exterior.

Tipo de BarreiraEficácia para PM2.5 (aprox.)Comentários
Janelas Fechadas10-30%Reduz entrada, mas não elimina; ineficaz contra partículas mais finas
Máscara de Pano5-20%Praticamente ineficaz; não filtra PM2.5
Máscara N95/FFP2 (correta)≥95%Barreira essencial para uso pessoal externo
Purificador de Ar HEPA≥99.97%Melhor solução para filtragem do ar interior
Plantas de InteriorNegligenciávelNão purificam o ar de forma significativa contra o fumo
Comparativo de Eficácia de Filtração para PM2.5

A monitorização da qualidade do ar interior, utilizando sensores de PM2.5, pode ser uma ferramenta valiosa para avaliar a exposição real e decidir sobre a necessidade de ventilação ou purificação. Em áreas urbanas de São Paulo, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) tem realizado estudos que mostram que, durante os períodos de queima de biomassa na Amazónia, as concentrações de PM2.5 no interior de edifícios podem ainda ser elevadas, mesmo a centenas de quilómetros de distância, sublinhando a natureza abrangente da ameaça.

Aumento Percentual no Risco de Hospitalização por Doenças Respiratórias Durante Incêndios (2015-2023)

Perguntas Frequentes

Quais são os principais componentes perigosos do fumo de incêndios?

Os principais componentes perigosos do fumo de incêndios são as partículas finas, especialmente o PM2.5, que podem penetrar profundamente nos pulmões. Além disso, o fumo contém gases tóxicos como monóxido de carbono, óxidos de nitrogénio, compostos orgânicos voláteis e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, todos com efeitos adversos na saúde.

Como posso saber se a qualidade do ar na minha zona é má devido ao fumo de incêndios?

Pode verificar a qualidade do ar através de aplicações e websites de monitorização da qualidade do ar, como o AirNow para dados globais ou agências ambientais locais em Portugal (APA) e no Brasil (CETESB, INPE). Estes recursos fornecem dados em tempo real sobre os níveis de PM2.5 e outros poluentes, ajudando a tomar decisões informadas sobre a exposição ao ar exterior.

Quais são os sintomas de exposição ao fumo de incêndios?

Os sintomas comuns de exposição ao fumo incluem tosse, irritação na garganta, olhos lacrimejantes, dor de cabeça, dificuldade em respirar e fadiga. Em casos mais graves, pode ocorrer dor no peito, tonturas e um agravamento de condições médicas pré-existentes, como asma ou doenças cardíacas.

Crianças e animais de estimação são mais vulneráveis ao fumo de incêndios?

Sim, crianças e animais de estimação são mais vulneráveis. As crianças têm vias aéreas mais pequenas e respiram mais ar por quilo de peso corporal, tornando-as mais suscetíveis. Animais de estimação também são afetados, pois têm sistemas respiratórios sensíveis e estão mais próximos do solo, onde as concentrações de poluentes podem ser mais altas.

O que devo fazer para proteger a minha casa do fumo de incêndios?

Para proteger a sua casa, mantenha portas e janelas fechadas, utilize um purificador de ar com filtro HEPA e evite atividades que possam aumentar a poluição interior, como acender velas ou usar lareiras. Se tiver ar condicionado, utilize a função de recirculação para evitar puxar ar exterior e certifique-se de que os filtros estão limpos e são de boa qualidade.

Como te chegou?

Leitura relacionada

Pesquisa em destaque